Ezequiel e o Mundo de Ossos Vivos
C. E. Gomes
“Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor Deus a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis.”Ezequiel 37:4-5
Capítulo 1
Profetiza sobre estes Ossos
O mundo sempre foi um lugar de medo e caos, pelo menos desde que me entendo por gente. Vivi os últimos suspiros do mundo antigo, mas o que restou daquela época são apenas borrões na minha memória. Tudo o que conheço de verdade se limita às grossas muralhas de Yerushalam. Do lado de fora, cada passo é uma aposta com a morte, um risco que ninguém quer correr a menos que esteja disposto a virar comida de zumbi.
Sair era exceção, um privilégio restrito aos mais preparados e apenas em casos de extrema necessidade. Meu pai, o doutor Buzi, era um desses homens. Ele era um médico brilhante, daqueles que conseguiam aliviar a dor dos outros mesmo quando os recursos eram escassos. Eu o observava com admiração e, no fundo, desejava seguir seus passos, sem ainda compreender a real dimensão do perigo que nos cercava.
Um dia, depois de muita birra da minha parte, porque sempre fui dramático, ele acabou cedendo e me deixou acompanhá-lo em uma expedição por ervas medicinais na Chapada dos Carcarás. O frio daquela manhã estava a nosso favor, pois, quando a temperatura caía, os ossos-vivos se agrupavam para se aquecer e se moviam menos. Meu pai sabia que não podia desperdiçar aquela oportunidade de colher remédios para os doentes da cidade. E eu, claro, não ia perder a chance de aprender com ele e conhecer o mundo lá fora.
O destino ficava longe. Para a viagem, meu pai conseguiu um cavalo, muito mais discreto do que qualquer veículo motorizado. Além disso, combustível havia se tornado artigo de luxo, raro demais para ser desperdiçado.
Dois bandeirantes foram conosco, pois conheciam aquelas terras melhor do que ninguém. Eram eles que mapeavam os arredores de Yerushalam, rastreavam as concentrações de ossos-vivos e abriam rotas seguras para o comércio com mascates e outras cidades fortificadas.
Os dois seguiam sempre à frente, atentos a qualquer sinal de perigo. Meu pai não demonstrava, mas estava com muito medo. Ele não costumava sair dos muros e só foi porque era um dos poucos capazes de identificar as ervas medicinais e os lugares exatos onde elas cresciam.
Quando o portão de Yerushalam começou a ranger, senti o estômago gelar.
Do outro lado estava o mundo morto.
O horizonte estava cinzento, coberto pela névoa do frio. Dei alguns passos para fora, e o cheiro forte de carne podre invadiu minhas narinas. Os ossos-vivos se arrastavam contra as muralhas, tentando subir, impregnando aquele odor em cada pedra. Para a nossa sorte, faltava-lhes habilidade para escalar tantos metros de superfície lisa. E, mesmo que conseguissem, as sentinelas permaneciam de prontidão no alto, vigiando invasores e saqueadores dia e noite.
Apesar da tensão constante, o trajeto ao lado do meu pai foi marcante. Ver que ele enfrentava o próprio medo para ajudar outras pessoas só aumentava minha admiração. Ao longo do caminho, ele me ensinava algo sobre cada planta ou inseto que encontrávamos.
Os dois bandeirantes se revezavam no outro cavalo. Um seguia a pé, analisando o terreno com cuidado, enquanto o outro ia montado. O som das ferraduras denunciava a nossa presença, por isso o guia ia sempre à frente, atento a qualquer ruído entre as rochas.
Tudo ficou mais tenso ao entrarmos em um trecho mais arborizado, cheio de esconderijos perfeitos para um osso-vivo. Meu pai interrompeu nossa conversa sobre o mundo antigo e ordenou silêncio absoluto.
Na hora, achei aquela precaução um exagero. Afinal, já tínhamos cavalgado quilômetros sem encontrar nenhuma alma viva. Ou morta.
Eu estava completamente enganado.
De repente, entre os galhos densos de uma árvore, um osso-vivo que estava preso lá no alto se agitou e despencou bem na frente do cavalo.
O animal empinou com violência, relinchando em pânico. Em um instante, tudo saiu do controle.
Com o tranco, minhas mãos se soltaram da cintura do meu pai. Fui arremessado para trás e bati no chão de terra.
Por sorte, o tombo não me machucou muito. Mas o zumbi já vinha tropeçando na minha direção, faminto pelo pequeno quitute de carne fresca que eu era.
O bandeirante do outro cavalo pulou da sela num impulso e voou com os dois pés direto na cabeça do osso-vivo. O baque jogou o monstro no chão, atordoado.
Meu pai, menos habilidoso, lutava com as rédeas para acalmar o cavalo e descer.
— Corre, filho! — gritou ele.
Minha primeira reação foi rastejar de costas, arrastando o corpo na terra para fugir da criatura. Num solavanco, me virei, fiquei de pé e disparei em direção às árvores mais fechadas.
— Por aí não! Pela trilha! Pra gente te ver! — berrou o bandeirante, lutando para conter o cinzento e se esquivar das mordidas.
Mudei a rota na mesma hora e corri pelo caminho aberto. O homem, cujo nome eu nem lembro mais, tinha toda razão. Na mata fechada, o risco de topar com outros ossos-vivos escondidos era bem maior.
Meu pai finalmente domou o cavalo. Aqueles poucos segundos pareceram uma eternidade. Ele saltou do animal e correu para socorrer o bandeirante, que já perdia as forças. A regra ali era cruel: ossos-vivos não se cansam. Nós, sim. O zumbi ainda se debatia sobre ele.
Meu pai abriu a bolsa com pressa, puxou uma seringa e quebrou uma ampola com os dentes. Sugou o líquido e, sem hesitar, cravou a agulha no pescoço da criatura. O cinzento reagiu na hora, virando o corpo para atacá-lo, mas meu pai acertou um soco na mandíbula com tanta força que o bicho desabou.
Ele nunca foi violento com ninguém.
Jamais imaginei que aquele médico pacífico soubesse dar um golpe daqueles.
Eu já estava mais à frente, mas parei assim que me senti a uma distância segura para observar a cena.
O osso-vivo ainda tentou se levantar, forçando os braços contra o chão, mas o tempo dele acabou. O líquido da seringa agiu rápido, fazendo o monstro amolecer e tombar de costas, apagado de vez.
Em seguida, o bandeirante puxou o facão preso à sela do cavalo e ergueu o braço, pronto para terminar o serviço. Mas, antes que a lâmina descesse, meu pai gritou:
— Pare! Preciso dele vivo! — Ele hesitou por um segundo. — Quer dizer… preciso dele assim. Vamos levá-lo com a gente.
— O senhor enlouqueceu? — protestou o homem, com os olhos arregalados. — Não podemos entrar com isso em Yerushalam. É perigoso demais!
— Preciso de um espécime inteiro para as minhas pesquisas. É a nossa única chance de descobrir uma cura.
— Mas… a guarda não vai nos deixar passar com ele, senhor.
— Deixa a guarda comigo, rapaz. Agora me ajuda a amarrar o bicho e botar no cavalo. O paralisante vai deixá-lo apagado por umas horas, tempo de sobra para fazermos o que viemos fazer e voltar para casa.
O homem desconfiou, mas acabou cedendo. Ele sabia que meu pai era um dos melhores cientistas de Yerushalam e que a maior chance de aquela cura nascer vinha dali.
Embalamos o osso-vivo para presente. O outro bandeirante, que já tinha voltado para avisar que o caminho estava limpo, ajudou a amarrar o cinzento na garupa do cavalo.
A essa altura, eu já não confiava mais nas avaliações dele. Afinal, o cara não enxergou um zumbi-tarzan dormindo bem em cima das nossas cabeças. Passei o resto do trajeto de orelha em pé.
Seguimos para o topo da Chapada dos Carcarás. Já era meio da tarde e a temperatura despencava a cada metro de altitude. O vento soprava mais forte, curvando as árvores tortas do cerrado e uivando entre as pedras. O som parecia um lamento, o que deu ao imenso desfiladeiro lá embaixo o nome de Vale dos Murmúrios.
Mas agora, além do vento, uma multidão de ossos-vivos unia os próprios gemidos àquela sinfonia macabra. Eles continuavam ali havia anos, desde o dia da transformação, esperando eternamente por alguma coisa. Uma estranha esperança mantinha aquela massa no mesmo lugar, estática, mesmo em uma região sem carne humana por perto.
Depois de recolher as ervas, paramos na beira do penhasco. À nossa frente, o horizonte se esticava até onde a vista alcançava, uma vastidão dourada lavada pela luz do fim da tarde. Se o mundo não fosse tão perigoso no escuro, eu apostaria a vida em que aquele era o ponto mais bonito do universo para ver o sol se pôr. Por alguns instantes, o caos simplesmente deixou de existir.
Meu pai quebrou o silêncio:
— Como é lindo, não é?
— Sim, pai. Acho que é a paisagem mais linda que eu já vi.
— Pois é. Deus é mesmo um grande artista para pintar uma tela tão perfeita como essa.
— Verdade — concordei. — Ele só errou na hora de criar aqueles monstros ali embaixo.
Meu pai suspirou, fixando os olhos no vale.
— Deus não erra, filho. Nós é que erramos. Aqueles que você chama de monstros são humanos. Como eu e você. E também são filhos amados por Ele.
— Se Ele ama tanto assim, por que deixa eles ficarem desse jeito?
— Deus nos deu um presente que nos separa de todas as outras criações deste mundo: a liberdade de escolher. E, por causa dela, fizemos coisas incríveis, mas também atrocidades terríveis. O surgimento dos ossos-vivos é consequência das nossas próprias escolhas.
— Então era melhor a gente não ter ganhado esse presente.
Ele sorriu e bagunçou meu cabelo.
— Você ia preferir que eu te trancasse numa bolha de proteção dentro do quarto, longe de qualquer perigo, mas sem poder decidir nada? Ia preferir que eu te proibisse de vir comigo hoje, só para não correr o risco de topar com aquele zumbi-tarzan?
— Lógico que não.
— Pois é. Você se machucou um pouco quando caiu do cavalo, mas está aqui, do meu lado, olhando essa paisagem. A liberdade tem seus riscos.
Fiquei mastigando aquela ideia por um instante, encarando as criaturas lá embaixo.
— Mas, pai... será que um dia Deus vai acabar com esses zumbis? Pra gente poder andar livre por aí, sem medo de ser atacado?
Ele me olhou nos olhos. A firmeza e a compaixão daquele olhar marcaram a minha alma para sempre:
— Eu não quero que Deus acabe com os zumbis, Ezequiel. Eu quero que Ele os cure.
— Mas, pai, todo mundo diz que eles já estão mortos. Como Deus ia trazer alguém de volta à vida?
— Deus já fez isso outras vezes, campeão. Além do mais, eu não acredito que eles estejam mortos. Por pior que seja o estado de um osso-vivo, tenho esperança de que ainda existe vida pulsando naqueles corpos. É por isso que continuo pesquisando uma cura.
— Entendi.
Ele suspirou, olhando a vastidão dourada do cerrado.
— Sei que é difícil enxergar uma saída em um mundo tão doente. O mais fácil é aceitar que as coisas vão continuar assim, ou até piorar. Mas olha para esse horizonte, filho. Você acha mesmo que o Deus que criou tudo isso não consegue mudar o nosso mundo?
— Até agora, eu achava que não.
— Pois Ele pode. E pode muito mais. Além da liberdade de escolher, eu acredito em outro presente que Ele deixou para nós.
— Poder? Tipo de super-herói? — perguntei.
Meu pai riu da comparação.
— Isso mesmo, tipo de super-herói. Deus deu poder às nossas palavras: o dom de profetizar. O que sai da nossa boca pode transformar quem somos e até o mundo à nossa volta.
Ele apertou minha mão e me guiou até a beira do penhasco, de onde víamos a multidão de ossos-vivos executando lá embaixo aquele balé macabro e arrastado.
— O que o senhor vai fazer, pai?
— Vou te ensinar a usar esse dom. Está vendo aquele vale? Você acredita que esses ossos podem reviver?
— Se o senhor acredita, eu confio que sim.
— Então profetize, meu filho. Diga que esses ossos-vivos vão voltar a viver.
Fechei os olhos por um segundo, enchi os pulmões de ar, ergui as mãos para o vale e gritei com toda a força que eu tinha:
— Ossos-vivos, voltem a viver! Que os ventos desta chapada soprem vida sobre vocês!
Fiquei em silêncio, de braços estendidos, esperando a mágica acontecer.
— Será que Deus já ouviu? — sussurrei.
— Com certeza! Pode ser que eles não voltem ao normal hoje, mas eu te garanto uma coisa: um dia você vai voltar aqui e, no lugar de uma multidão paralisada pela morte, vai encontrar um exército de pessoas prontas para lutar.
Naquele momento, achei que ele só estava tentando me consolar. Eu ainda não sabia que aquelas palavras se tornariam parte do meu destino.
Antes de irmos embora, permanecemos ali por mais alguns minutos, abraçados à beira do abismo. Uma brisa leve passou por nós. Então, como uma resposta dos céus, quatro carcarás surgiram do vale e começaram a voar em círculos acima de nós.
Meu pai sorriu e apertou meu ombro com orgulho. Para ele, não havia dúvida: Deus tinha escutado.
Capítulo 2
Era para ser um Lugar de Paz
Os sacerdotes violam a minha lei e profanam as minhas coisas santas; não fazem diferença entre o santo e o profano, nem discernem entre o imundo e o limpo; escondem os olhos de meus sábados, e eu sou profanado no meio deles.
(Ezequiel 22:26)
Alguns dias se passaram desde a nossa viagem à Chapada dos Carcarás. Depois de respirar o ar livre e ver aquelas paisagens moldadas pelo Criador, a realidade dentro de Yerushalam ficou cinzenta demais, sem graça.
Ali, o concreto dominava tudo. Os prédios do antigo centro de pesquisa permaneciam quase como eram antes da praga: blocos retos, paredes grossas, janelas estreitas. A diferença é que agora varais improvisados balançavam nas sacadas, plaquinhas indicavam pequenas vendas e crianças corriam pelos corredores que um dia cheiraram a desinfetante e produtos químicos.
Deram à cidade o nome de Yerushalam por significar algo como “Lugar de Paz”.
A imensa muralha de pedra completava o cenário, bloqueando a vista e esfregando na nossa cara o quanto o mundo lá fora era inalcançável. Só víamos o nascer do dia quando abriam o portão leste. A luz dourava as ruas por alguns poucos minutos e logo sumia atrás do concreto. Por causa desse espetáculo rápido, o lugar ganhou o apelido de Portão do Sol.
Para fugir desse tédio, eu costumava passar o tempo ajudando meu pai em seu laboratório, instalado no Núcleo Central de Pesquisa. O prédio ficava bem no coração da cidade. Era impossível não notá-lo.
O povo o chamava de Templo.
No começo, diziam isso com esperança. Depois, virou apenas costume.
Os corredores ainda exibiam placas velhas nas portas: “Biologia Molecular”, “Química Aplicada”, “Ensaios Clínicos”. Muitas salas ficavam trancadas, acumulando pó sobre os equipamentos desligados. Outras tinham virado depósitos ou escritórios administrativos.
Era o segundo prédio mais importante da cidade, atrás apenas da Reitoria. No antigo mundo, o local servia apenas para administrar o grande centro de pesquisa sobre o qual a cidade foi fundada. Agora, funcionava como a sede do governo de Yerushalam.
O antigo reitor, Joaquim Silva, governou por um tempo antes de passar o bastão ao filho, Jaconias. E o povo, carente de heróis, tratava o homem como realeza, chamando-o de “grande reitor”, “gran-reitor” ou até mesmo “gran-rei”.
Nos primeiros anos da cidade, médicos e cientistas montaram uma força-tarefa que trabalhava dia e noite em busca de uma cura. Meu pai era um deles. A esperança era tanta que a ciência virou quase uma religião.
Mas os anos passaram. A empolgação secou com o acúmulo de fracassos. Um a um, os laboratórios fecharam as portas.
Enquanto meu pai, o doutor José Francisco Buzi, batia o pé em sua missão, outros médicos encontraram um jeito bem menos nobre de ganhar a vida. Passaram a vender seus conhecimentos nas cidades-comércio e ali mesmo em Yerushalam, cobrando fortunas por qualquer consulta. Parteiras extorquiam mulheres desesperadas que vinham de longe, muitas vezes com gravidez de risco.
A ganância não parou por aí. Alguns químicos e médicos começaram a fabricar drogas. Em um mundo onde dor, medo e tédio faziam parte do dia a dia, o alívio virou uma mercadoria muito fácil de lucrar.
No fim, sobrou só o meu pai.
Ele era um dos únicos que ainda tinha o respeito do povo. Talvez não pela fé na cura, que muita gente já tratava como lenda, mas por ter continuado honesto e fiel à promessa de salvar vidas.
Naquela manhã, eu estava ajudando meu pai a preparar uma nova rodada de experimentos, e a gente tinha um reforço especial. Minha mãe, a doutora e pediatra Rosalina Buzi, desmarcou todas as consultas para passar o dia trabalhando com a gente no laboratório.
— Zéq, traz aquela centrífuga pra mamãe, por favor — pediu ela, ajeitando as luvas.
— Essa grandona aqui?
— Essa mesma.
Peguei o equipamento pesado e fui, todo desajeitado, na direção dela.
— Cuidado para não deixar cair! E não seja afobado igual ao seu pai.
— Aceita logo que esse garoto é a minha cópia, amor — brincou meu pai, rindo.
— Eu já aceitei isso faz tempo. Mas agora eu quero uma menina para ser a minha cópia também.
— Vamos providenciar isso aí! — respondeu ele, dando uma piscadinha para ela.
— Pai, por falar em cópia, eu vou querer um jaleco igualzinho ao seu, com o meu nome bordado no peito — pedi, empolgado.
— Vou te colocar para catalogar lâminas pelo resto da semana. Se provar que leva jeito para ser cientista e fizer tudo certinho, mando fazer um jaleco pra você.
Dei um grito de felicidade que ecoou pelo laboratório inteiro.
— É um puxa-saco mesmo. Estou me rasgando de ciúmes por dentro — provocou minha mãe, forçando uma cara de indignação.
— Não fica assim, mãe. Prometo que te ajudo a cuidar das crianças no postinho na semana que vem.
— Obrigada, meu amor. A mamãe só estava brincando, mas vou adorar ter você comigo lá — disse ela, me apertando num abraço.
O clima leve e familiar, no entanto, durou pouco. A expressão do meu pai fechou de repente. Ele caminhou até a porta principal do laboratório e girou a trava por dentro, garantindo que ninguém nos interromperia. Em seguida, destrancou a pesada porta de metal que levava à ala secreta.
Era ali que ele guardava algumas das cobaias: ossos-vivos capturados para os experimentos. Entre eles estava o nosso velho conhecido da Chapada, que a minha falta de criatividade infantil tinha apelidado de “Tarzumbi”.
E foi justamente ele que meu pai escolheu para o experimento do dia. Ele agiu com uma naturalidade assustadora, com a calma de quem escolhe uma camisa no armário. Vestiu o avental, ajeitou as luvas de borracha e fez um sinal para que eu e minha mãe recuássemos.
Algumas horas antes, ele havia injetado uma dose leve de paralisante no osso-vivo, apenas o suficiente para conter o bicho sem alterar demais a química do corpo e comprometer os resultados.
Quando meu pai o puxou para o centro do laboratório, preso a uma maca vertical com rodinhas, uma tensão silenciosa tomou conta do ambiente. Mesmo imobilizado por grossas tiras de contenção, o Tarzumbi não parava quieto. A mandíbula estalava sem parar e, de vez em quando, ele soltava um som estranho, uma mistura de grunhido e suspiro de cansaço.
— José... você tem certeza de que isso é seguro? — perguntou minha mãe. Ela deu um passo para trás, com a voz tremendo de tensão.
— Está tudo sob controle. Ele está bem amarrado — garantiu meu pai, sempre atento às amarras.
Eu não conseguia desviar o olhar do monstro. E, naqueles instantes, tinha certeza de que ele me encarava de volta.
Meu pai engoliu em seco e começou a conectar os eletrodos no corpo do zumbi para monitorar os sinais vitais, ou mortais, sei lá. As mãos tremiam sempre que ele passava os fios perto daquela boca cinzenta e cheia de dentes.
Após checar os monitores, ele pegou uma seringa cheia de um líquido amarelado. Respirou fundo, secou o suor da testa com as costas do braço e cravou a agulha no braço do Tarzumbi. A substância escorreu para dentro das veias escurecidas. Elas saltaram na mesma hora, deixando a pele do monstro com um tom febril.
Meu pai recuou um passo, ofegante.
— Pronto — sussurrou ele. — Agora é só esperar.
Ele deu alguns passos para trás, mantendo os olhos na tela. As linhas dos batimentos cardíacos e das ondas cerebrais deram picos caóticos, até ganharem um ritmo mais lento e marcado.
— Está reagindo — murmurou ele, sem piscar. — O metabolismo está mudando. A frequência neural também.
Na maca, o osso-vivo começou a se contorcer. Ele jogava a cabeça para os lados e puxava as algemas de contenção com uma força absurda. O metal rangia contra o couro.
— José, ele vai se soltar! — gritou minha mãe, encolhendo os ombros, apavorada.
— Espera, Rosalina… O organismo dele só está lutando contra o antídoto! — respondeu meu pai, hipnotizado pelos números. — Está… estabilizando.
O silêncio dominou o laboratório. O monstro parou de se debater. Seu peito subia e descia num ritmo pesado e irregular, mas inegavelmente vivo. Nos monitores, os números apresentavam resultados idênticos aos de uma pessoa saudável.
— O antídoto está funcionando… — meu pai deu um passo à frente, chocado.
O Tarzumbi levantou a cabeça devagar. O véu leitoso dos olhos dele se desfez, revelando um brilho castanho e humano. Ele piscou, olhando direto para o meu pai.
Ninguém ousou respirar.
— Pai, ele está vivo! Você conseguiu!
Eu comemorei cedo demais.
O momento de paz se estilhaçou com um grito rasgado, um som que misturava dor humana com a fúria irracional de um monstro. Alguma coisa indescritível devia estar queimando nas veias dele, porque o bicho voltou a se debater com uma força que desafiava a própria biologia. O monitor apitou feito louco, disparando um alerta vermelho de falha crítica.
Antes que meu pai pudesse entender o erro, um estalo seco cortou a sala. O cinzento arrancou a fivela de contenção. Em frações de segundo, destruiu as outras amarras e se soltou por completo.
Livre, o monstro avançou feito uma fera contra o meu pai. No susto, ele empurrou uma bandeja cheia de equipamentos no peito da criatura para frear o ataque. Minha mãe me agarrou pelos ombros, e me puxou contra ela num abraço desesperado. Petrificada, ela observava por cima do meu ombro o marido lutar pela vida.
A criatura estalava a mandíbula, tentando morder o rosto dele a qualquer custo, mas meu pai travou os pulsos do zumbi, fazendo força para mantê-lo afastado.
Os braços do meu pai já cediam diante da força bruta. O instinto de proteção da minha mãe falou mais alto. Ela me soltou bruscamente e apontou para o fundo da sala, berrando com todas as forças:
— Ezequiel, para trás da mesa! Agora!
Corri e me encolhi atrás do balcão. Eu tremia tanto que meus dentes batiam, mas ainda enxergava tudo por uma fresta entre os equipamentos.
O Tarzumbi encurralou meu pai contra a parede. Meu pai ergueu uma banqueta de metal, empurrando aquelas mandíbulas frenéticas para longe, mas o monstro era implacável. Em uma investida brutal, a criatura venceu o bloqueio e mordeu perto do pulso direito dele.
Minha mãe surgiu num ímpeto de desespero e desceu um microscópio pesado na cabeça do osso-vivo. O impacto fez o bicho cambalear e soltar meu pai, mas não o derrubou.
Em um reflexo animalesco, a criatura girou o corpo e cravou os dentes direto no pescoço dela.
O grito da minha mãe, aquele grito, gelou minha alma de um jeito que eu nunca vou esquecer. Eu não consegui olhar direito para o que aconteceu em seguida. Só lembro do sangue e do pavor tomando conta da sala.
Meu pai rugiu, cego de dor e ódio puro. Ele se lançou sobre o monstro, agarrou o pescoço dele e o jogou no chão. Enquanto o zumbi se debatia debaixo dele, meu pai abriu uma das gavetas às cegas. Puxou um bisturi longo e, num golpe rápido e impiedoso, enterrou a lâmina até o fundo no pescoço do Tarzumbi.
Ele ficou ali, ofegante, as mãos tremendo sobre a arma, esperando a criatura parar de se mover. Seus olhos, de repente, encontraram os meus através da fresta. Eu continuava paralisado. Por um breve e terrível instante, vi algo se quebrar dentro dele. Não era fraqueza. Era vergonha. A dor de um cientista e de um pai que havia acabado de fazer exatamente o que ensinara ao filho a nunca fazer: matar.
Mas a culpa durou apenas um segundo. O som da minha mãe agonizando o trouxe de volta à realidade, e o rosto dele se quebrou em desespero.
Ele rastejou até ela. Quando viu o estrago no pescoço, o choro explodiu num urro abafado. A sentença era clara, e o contágio corria rápido demais. Não havia o que fazer: em poucos minutos, ela viraria um monstro também.
— Rosalina... eu estou com você, meu amor. Fica comigo. Vai ficar tudo bem... — disse ele, com a voz embargada, pressionando o pescoço dela inutilmente.
— José... — ela balbuciou, tossindo sangue e puxando o ar com sacrifício. — Eu sou médica... não minta para mim. Me mata... por favor. Eu não quero que nosso menino me veja como um monstro.
— Não... não! Eu vou encontrar um jeito! — teimou meu pai, balançando a cabeça, recusando-se a aceitar.
— Você precisa ser rápido, José... — ela sussurrou, a vida se apagando em seus olhos. — Corte o seu braço. A sua mordida... Um de nós precisa ficar vivo para cuidar do Ezequiel.
A ficha dele caiu. Ele deu um salto, correndo até a bancada e derrubando frascos e vidros pelo caminho. Puxou um torniquete de borracha e o amarrou com brutalidade logo acima do cotovelo, apertando o nó com os dentes. A respiração dele era um chiado desesperado. Pegou a lâmina cirúrgica novamente e avaliou o próprio braço.
— Pai, o que você vai fazer? — perguntei, saindo do meu esconderijo aos prantos, com a voz fina e trêmula.
Ele não respondeu. Apenas fechou os olhos, travou a mandíbula e desceu a lâmina com toda a força que tinha sobre o próprio braço.
O sangue esguichou na mesma hora, lavando de vermelho o chão e as pernas de metal da mesa. Cambaleando, cego por uma dor absurda, ele pegou um maço de gazes e pressionou o toco do braço, puxando o ar com violência.
Caiu de joelhos e ficou ali por um longo e agonizante instante, chorando em silêncio absoluto.
Com o ferimento precariamente enfaixado, ele forçou o corpo para cima. Tropeçou nos próprios pés, pálido pela perda de sangue, mas conseguiu se manter de pé e me chamou com um aceno trêmulo.
— Ezequiel... me ouve bem, filho... você precisa fazer uma coisa muito importante. Eu vou levar sua mãe para a ala secreta, onde os outros estão contidos. E você tem que travar a porta de metal por fora.
— Mas, pai... — recuei um passo, apavorado com a ideia de ficar sozinho ali.
— Escuta, filho! — ele gritou. A firmeza desesperada na voz dele me calou na mesma hora. — Eu vou prender sua mãe lá dentro antes que a praga a domine de vez. E vou esperar alguns minutos para ver se a amputação funcionou ou se eu também vou me transformar. Se der certo... se eu não me transformar, faço um desenho ou escrevo um bilhete e empurro por baixo da porta. Só me tira de lá quando vir o papel. Entendeu?
Engoli o choro e concordei com a cabeça.
Cheguei perto da minha mãe pela última vez. Deixei um beijo molhado de lágrimas no rosto dela, que já estava frio, perdendo a vida. Abracei meu pai com toda a força que meus braços de criança permitiam. Ele me apertou de volta, suspirou pesado e, com muito sacrifício, arrastou o corpo mole da minha mãe para dentro da ala de contenção dos zumbis.
Assim que ele fechou a pesada porta, girei a trava por fora. O baque metálico da fechadura decretou a sentença.
Deslizei as costas pela placa fria de aço até sentar no chão do laboratório e abracei meus joelhos. A espera durou uma eternidade, mergulhada num silêncio agonizante.
A espessura da porta abafava os ruídos lá de dentro, mas não o suficiente. Escutei o terror acontecendo do outro lado: o som de uma convulsão, baques surdos contra a parede e os primeiros rosnados da minha mãe, agora uma alma perdida.
Eu já estava entregue ao pânico de ficar completamente órfão quando um ruído diferente cortou o silêncio.
Alguma coisa raspou no piso do outro lado. Olhei para a fresta inferior. Um pedaço de papel amassado deslizou devagar por baixo do aço.
Puxei o papel com as mãos tremendo. Era um pequeno desenho, feito às pressas e manchado de sangue: um boneco de palito maior abraçando um boneco menor. Logo abaixo, na caligrafia que eu conhecia tão bem, a mensagem final:
“Eu te amo.”